segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O calor que me anima

É difícil sair de perto de uma chama quando nos acostumamos ao calor dela.
Pode ser a qualquer momento, até mesmo ao meio dia. Não existe algo que incomode no fato de vê-la queimando, incomoda apenas ter que sair de perto.

O tempo às vezes só faz com que ela tenha labaredas ainda maiores, parece que ele sopra e vira combustível junto com algumas palavras bobas e insanas, não nos faz querer voltar a um ponto, o único ponto no qual queremos estar é olhando para a luz azul-amarelada.

Gosto do calor, não minto.

Vou bem devagar, tento não encostar muito, tento me apegar à minha realidade, ela me leva pra longe desse calor. Talvez um dia me queime com isso. Mas e daí? Meu presente me aquece.

Por que será que tenho sempre medo de começar, de chegar perto, e quando já está próximo de acabar, não quero abandonar? Tento esquecer e fico maluca com tanto desejo. Queria pular numa piscina de sorvetes, mas o sorvete já entrou em combustão e dançou com o vento na minha frente, queimando mais que o sol.

Me sinto mais fraca que Ícaro, querendo subir e me queimar no local onde o calor nunca acaba. Gostaria muito de ser feita de ar, e poder me misturar ao fogo sem ser matéria. Ser beijada por ele sem ter ao menos um pouco de fuligem para me marcar.

Eu saberia passar por ele e deixar apenas o desejo de uma próxima vez.

Sou sacerdotisa do vento, mas estou ligada ao chão e não sei voar. Ele é um sacerdote do fogo, possui dois olhos de brasa perigosa e de água cristalina, eu viro fumaça após me misturar com ele. Em mim só cresce a necessidade de olhá-lo e de beijar seu fogo.

Todos os dias em que me mostra como a chama pode crescer, tenho vontade de deixar minha matéria e virar fumaça para sempre, assim quem sabe vou poder beijá-lo sem que o mundo olhe para mim de forma maldosa.

O calor que me anima, um dia vai queimar minha alegria, espero conseguir sair de perto do fogo antes que isto aconteça.

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