É como se estivéssemos os dois balançando numa rede.
Cada um na sua.
Minha rede vai e vem, a dele também e nós ficamos nesse balanço cronometrado, coreografado, de duas pessoas que querem se tocar, de duas redes que alcançam o bastante para nos dar vontade de ter cada vez mais impulso. Vamos balançando mais alto e nossa dança fica cada dia mais longa, vai tendo mais propriedade de continuar sozinha, sem querer (querendo).
Quase sempre o balanço dessa rede ameniza seus movimentos e nos vemos num balanço suave, daqueles em que temos medo de exagerar para não cair, praticamente nos arrastamos nesse balanço.
É o balanço de dois amigos que vão apenas conversar para não misturar as coisas, com risos e gracinhas bobas. É o balanço de onde me vejo nos olhos dele brincando como um menino, agindo como um menino, fazendo de tudo para não ser confundida. Os olhos azuis dele me fazem ter a calma de uma pessoa estranha – por pouco tempo. É difícil me manter calma e não me enrolar nas palavras.
E não me enrolar na vontade. Me enrolo e me afasto.
A rede começa a balançar novamente, eu começo fazendo o balanço me afastar dele. É ruim, não gosto, porque nenhuma das minhas obrigações que me afastam de algo que eu gosto são boas.
Minha obrigação é observá-lo de longe e dançar no balanço da rede onde nunca vou tocá-lo. Quando a rede nos aproxima, tenho que me distanciar novamente, e isso dói. Não gosto de ser um menino perto dele, não quero ser a amiga, mas sou, se quiser só dessa forma. E às vezes o ridículo aparece, e eu me escondo. Meu respeito por mim transborda no balanço, da mesma forma que um copo derrama quando caminhamos.
Meu verdadeiro par aparece na minha frente algumas vezes e a beleza dele me faz esquecer os olhos azuis. Mas não permanentemente. A rede que parou vai voltar a balançar. E quando ela recomeça depois de muito tempo, vai a uma altura que não consigo controlar.
Gostaria de pular na rede dele. Mas balançar ao lado dele é quase um suicídio, não caibo ali, e vou cair desse lugar tão estreito, vou me machucar, vou morrer. Prefiro viver no brilho dourado dos meus sonhos. Ali é o único lugar onde a rede não balança, é a única possibilidade de estar com os pés no mesmo chão que ele.